Alexandre Ramagem, ex-deputado condenado pelo STF a 16 anos por tentativa de golpe de Estado, foi preso pelo ICE em Orlando (Flórida) nesta segunda (13). Bastidores revelam monitoramento de SUV usado para buscar a esposa no aeroporto, uso de passaporte cancelado e cooperação entre Polícia Federal e autoridades americanas. Caso agora depende de juiz de imigração em Jacksonville, com pedido de asilo político em discussão (159 caracteres).
Brasília. O ex-deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ) foi preso na segunda-feira (13) pelo Serviço de Imigração e Controle de Aduanas dos Estados Unidos (ICE) em Orlando, na Flórida. Condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a 16 anos de prisão por integrar o núcleo da trama golpista que visava manter Jair Bolsonaro no poder após as eleições de 2022, Ramagem estava foragido desde setembro de 2025.
A detenção, confirmada pela Polícia Federal brasileira, ocorreu por questões migratórias após abordagem em via pública. Os detalhes da operação, revelados por repórteres do G1, mostram um trabalho de inteligência que durou meses e envolveu rastreamento de veículos, monitoramento familiar e cooperação internacional.
Como a PF localizou Ramagem nos EUA
A localização do ex-parlamentar começou com a identificação de um SUV utilizado por ele logo após a chegada aos Estados Unidos. Investigadores brasileiros descobriram que o veículo serviu para buscar a esposa de Ramagem no aeroporto de Orlando, o que permitiu mapear sua residência na cidade.
Durante o monitoramento, a Polícia Federal constatou que Ramagem comprou um automóvel utilizando passaporte diplomático já cancelado por determinação da Justiça brasileira. A informação foi compartilhada com as autoridades americanas.
Houve tentativa de obter mandado de prisão por fraude documental nos EUA, mas o pedido foi negado. O foco da operação então se concentrou na irregularidade migratória do brasileiro, que entrou no país de forma irregular após fugir do Brasil.
Detalhes da abordagem e prisão
Ramagem foi abordado por agentes do ICE enquanto caminhava em via pública em Orlando. Inicialmente, os oficiais alegaram uma infração de trânsito para realizar a checagem de documentos. Ao apresentar o passaporte vencido, a irregularidade foi confirmada e a prisão efetuada.
O ex-deputado está detido em um centro de imigração. Seu caso será analisado por um juiz federal de imigração em Jacksonville, na Flórida. O processo costuma ser lento e exige que a defesa apresente primeiro um pedido de liberdade provisória.
Fuga clandestina e condenação no STF
Ramagem deixou o Brasil de forma clandestina em setembro de 2025, antes do fim do julgamento no Supremo Tribunal Federal. Ele atravessou a fronteira entre Roraima e a Guiana e, em seguida, seguiu para os Estados Unidos.
Em dezembro de 2025, após a cassação de seu mandato pela Câmara dos Deputados, o Ministério da Justiça formalizou o pedido de extradição ao governo norte-americano. O ministro Alexandre de Moraes determinou a inclusão do nome de Ramagem na lista de difusão vermelha da Interpol.
A condenação de 16 anos decorre da participação de Ramagem no núcleo político da suposta tentativa de golpe de Estado investigada pela Polícia Federal no âmbito das investigações sobre os atos de 8 de janeiro de 2023 e planos anteriores.
Cooperação entre PF e ICE
A prisão resultou de meses de articulação entre a Polícia Federal e as autoridades da Flórida. Um delegado brasileiro que atua como oficial de ligação junto ao ICE em Miami desempenhou papel central, emitindo alertas e compartilhando informações de inteligência.
O diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, destacou a importância dessa cooperação bilateral para a localização de foragidos. A estratégia faz parte de acordos internacionais de combate ao crime organizado e à fuga de condenados.
Defesa anuncia pedido de asilo político
A defesa de Ramagem planeja pedir liberdade provisória e alegar perseguição política para solicitar asilo nos Estados Unidos. Os advogados sustentam que o caso tem motivação política e não se trata de crime comum.
Do lado brasileiro, as autoridades preparam argumentos para demonstrar ao juiz americano que se trata da execução de uma pena por condenação criminal transitada em julgado, e não de perseguição. O governo federal busca evitar a concessão de asilo para viabilizar a extradição.
Contexto político e implicações
A prisão de Ramagem reacende o debate sobre a efetividade da cooperação internacional em casos de condenados por crimes contra o Estado Democrático de Direito. O episódio ocorre em meio a tensões políticas no Brasil, com aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro denunciando o que chamam de “perseguição judicial”.
Especialistas em direito internacional consultados por veículos de imprensa afirmam que o êxito da extradição depende da capacidade do Brasil de comprovar a natureza comum do crime perante a Justiça americana. Países como os EUA costumam negar extradição em casos com forte conotação política.
O caso também expõe vulnerabilidades na fiscalização de fronteiras brasileiras e a facilidade com que condenados conseguem deixar o país antes do trânsito em julgado definitivo.
O que acontece agora
Ramagem permanece sob custódia do ICE. O juiz de imigração em Jacksonville definirá os próximos passos, que podem incluir audiência para análise do pedido de asilo ou de liberdade. Enquanto isso, o Ministério da Justiça e a Polícia Federal continuam a fornecer elementos ao governo americano para sustentar a extradição.
A operação reforça a estratégia da PF de utilizar canais de inteligência internacional para capturar foragidos de alta visibilidade. Nos próximos meses, o desfecho do caso de Ramagem servirá como teste para a relação bilateral Brasil-Estados Unidos na área de cooperação policial e judicial.









