Agro brasileiro desvia exportações para Mar Vermelho

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Com o fechamento do Estreito de Hormuz na guerra entre Irã e EUA desde o fim de fevereiro de 2026, o agronegócio brasileiro redirecionou parte significativa de suas exportações de carnes, açúcar e grãos para portos do Mar Vermelho na Arábia Saudita. A nova rota mantém 80% do fluxo, mas elevou custos de frete em mais de 100%. Entenda os impactos logísticos, as medidas do governo e o futuro do comércio com o Oriente Médio. (158 caracteres)

O agronegócio brasileiro adaptou rapidamente suas rotas de exportação e passou a direcionar boa parte das cargas destinadas ao Oriente Médio para o Mar Vermelho. A mudança ocorre após o fechamento do Estreito de Hormuz, principal corredor marítimo da região, bloqueado desde o fim de fevereiro de 2026 em razão da guerra entre Irã e Estados Unidos. A estratégia logística permite manter o abastecimento de países que dependem de proteínas animais, açúcar e grãos brasileiros, mesmo com o aumento dos custos de transporte.

A alternativa via Mar Vermelho ganhou protagonismo em poucas semanas. Em vez de seguir diretamente pelos portos do Golfo Pérsico, os navios agora atracam na costa oeste da Arábia Saudita, em terminais como Jeddah, Yanbu, King Abdullah, Jazan e Neom. De lá, as mercadorias seguem por caminhões ou embarcações menores até os destinos finais no Oriente Médio. A manobra envolve não apenas os exportadores brasileiros, mas também os próprios governos da região, que buscam garantir a segurança alimentar em meio ao conflito.

Queda temporária no volume, mas demanda aquecida

Os números de março de 2026 mostram redução nos embarques diretos. As exportações de carne bovina para sete países do Oriente Médio (Emirados Árabes Unidos, Jordânia, Qatar, Iraque, Turquia, Arábia Saudita e Líbano) caíram de 22 mil toneladas em fevereiro para 18 mil toneladas, uma retração superior a 20%. No caso da carne de frango, enviada a 13 nações da região (incluindo Arábia Saudita, Emirados, Qatar, Omã, Kuwait e Irã), o recuo foi de 18,5% no mesmo período.

Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), esclarece que não se trata de perda de mercado. “Não é uma queda por falta de pedidos ou fechamento de mercado. É apenas dificuldade logística. Inclusive, a demanda está mais forte porque os países buscam segurança alimentar e armazenamento”, afirmou. Segundo ele, o Brasil conseguiu preservar cerca de 80% do volume original por meio de rotas alternativas.

Antes do conflito, aproximadamente 40% das cargas já seguiam pelo Mar Vermelho. Nas últimas semanas, o percentual aumentou de forma significativa, com o apoio de armadores globais. Empresas como Maersk, MSC, CMA CGM e Hapag-Lloyd inauguraram cinco novas rotas que incluem escalas nos portos sauditas, adicionando capacidade de 64 mil toneladas à região.

Arábia Saudita facilita entrada e Mapa orienta exportadores

A diplomacia brasileira atuou para viabilizar a mudança. O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) foi acionado pela embaixada em Riad e recebeu informações de que as autoridades sauditas flexibilizaram regras para a entrada de produtos pelo Mar Vermelho. As orientações foram repassadas às regionais do ministério em todo o país.

De acordo com o Mapa, os portos da costa oeste operam com capacidade ociosa e adotaram medidas para ampliar eficiência, incluindo melhor gestão de escalas e investimentos em infraestrutura. Importante: o redirecionamento não exige alteração na licença de importação nem no Certificado Sanitário Internacional, desde que o importador comunique o motivo da mudança de rota à autoridade saudita.

Frete de contêineres refrigerados quase dobra

O principal impacto financeiro recai sobre o custo do transporte. Roberto Perosa, presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), relata que o frete de um contêiner refrigerado saltou de cerca de US$ 3 mil para mais de US$ 7 mil — alta superior a 100%. “Além disso, com a mudança nas rotas e desvios para evitar áreas de conflito, aumentou o tempo e o custo do transporte”, explicou.

As indústrias brasileiras negociam com os armadores para mitigar parte dos custos extras. Até o momento, a maioria dos importadores tem absorvido o aumento porque precisa manter o fluxo de suprimentos e evita interrupções na cadeia produtiva nacional.

Oriente Médio representa fatia relevante do comércio agro

O mercado árabe é estratégico para o Brasil. Em 2025, o país exportou US$ 21,34 bilhões aos países árabes, volume 9,81% inferior ao recorde de 2024. Mesmo assim, o agronegócio respondeu por 72% do total, ou US$ 15,91 bilhões. Os principais itens foram carnes, açúcar, grãos e minério de ferro. No último trimestre de 2025, as vendas cresceram 8,2% em relação ao mesmo período do ano anterior.

A região consome grande volume de proteína animal brasileira, especialmente frango e bovina, além de açúcar e soja. O fechamento do Hormuz — corredor por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial e importante rota de comércio global — forçou essa redistribuição, mas também evidenciou a resiliência da logística brasileira.

Implicações econômicas e operacionais

A operação via Mar Vermelho exige coordenação maior entre exportadores, armadores e autoridades portuárias. O tempo de entrega aumentou, conforme relatado por empresas do setor, e o custo extra pode pressionar margens caso o conflito se prolongue. No entanto, a capacidade ociosa dos portos sauditas e a agilidade na flexibilização de regras minimizaram gargalos operacionais até o momento.

Especialistas do setor destacam que a experiência atual reforça a importância de diversificar rotas e investir em infraestrutura logística. O Brasil, como um dos maiores exportadores mundiais de alimentos, demonstra capacidade de adaptação em cenários de instabilidade geopolítica.

Perspectiva futura

O desvio para o Mar Vermelho deve se manter enquanto persistir o bloqueio no Estreito de Hormuz. Caso o conflito seja resolvido, as rotas tradicionais podem voltar gradualmente, mas a experiência deve deixar lições permanentes sobre a necessidade de rotas alternativas consolidadas.

Para o agronegócio brasileiro, o episódio reforça a relevância do Oriente Médio como parceiro comercial e a importância de manter canais abertos com governos da região. Com a demanda por segurança alimentar em alta, o Brasil continua posicionado como fornecedor confiável, mesmo diante de desafios logísticos imprevisíveis.

O Mapa segue monitorando a situação e orientando o setor. Representantes das associações ABPA e Abiec indicam que as negociações com armadores prosseguem para reduzir o impacto dos custos elevados de frete. Enquanto isso, a cadeia produtiva nacional mantém o ritmo, garantindo que os produtos cheguem aos consumidores do Oriente Médio com o menor atraso possível.

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