O governo Trump voltou a criticar o Pix em relatório do USTR de março de 2026, apontando tratamento preferencial do Banco Central como barreira comercial. Entenda as razões do novo ataque ao sistema de pagamentos instantâneos brasileiro, as possíveis retaliações comerciais via Seção 301 e a firme defesa do presidente Lula. (158 caracteres)
Brasília — Quase dez meses após abrir investigação comercial contra o Brasil, o governo dos Estados Unidos voltou a colocar o Pix na mira. O sistema de pagamentos instantâneos brasileiro foi citado explicitamente em relatório do Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) divulgado em 31 de março de 2026, reacendendo o debate sobre as críticas americanas e os possíveis desdobramentos para as relações bilaterais.
O documento, conhecido como National Trade Estimate Report, lista o que Washington considera barreiras comerciais impostas por mais de 60 países a empresas americanas. Em pouco mais de 500 páginas, o Pix aparece em um único parágrafo, mas de forma clara e repetida três vezes. O texto afirma que o Banco Central do Brasil “criou, detém, opera e regula” a plataforma e concede a ela tratamento preferencial, o que prejudicaria fornecedores de serviços de pagamento eletrônico dos EUA. O relatório destaca ainda a exigência do BC para que instituições financeiras com mais de 500 mil contas adotem o sistema.
A menção marca o segundo round de pressão da administração Trump. Em julho de 2025, a mesma agência havia aberto inquérito sob a Seção 301 do Trade Act de 1974 para investigar se o Pix configura “prática desleal” contra a competitividade americana no setor de pagamentos digitais. A investigação continua em andamento, sem data definida para conclusão.
Reação brasileira e apoio internacional
O governo brasileiro não demorou a responder. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reafirmou categoricamente a soberania sobre o sistema. “O Pix é do Brasil. Ninguém vai fazer a gente mudar o Pix”, declarou em entrevista recente. A posição reforça o entendimento de que o Pix representa uma conquista nacional de inclusão financeira e modernização tecnológica.
O apoio não veio apenas de Brasília. O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, saiu em defesa do modelo brasileiro e, em publicação nas redes sociais, defendeu a adoção de mecanismo semelhante em seu país.
Por que os EUA endureceram o tom agora
Especialistas ouvidos por diferentes veículos apontam que a crítica mais direta no relatório de 2026 — ao contrário de menções mais indiretas em documentos anteriores — pode estar ligada a dois fatores principais. Um deles foi o posicionamento brasileiro na Organização Mundial do Comércio (OMC), onde o país bloqueou proposta americana e de outros parceiros para prorrogar a moratória de tarifas sobre transmissões eletrônicas, que engloba serviços digitais como streaming, softwares e jogos.
Outro elemento foi o revés judicial sofrido pela administração Trump nos Estados Unidos. Em fevereiro de 2026, a Suprema Corte americana limitou o uso de uma lei de emergência econômica para justificar tarifas amplas, o que pode ter levado Washington a reforçar o uso da Seção 301 como instrumento alternativo de pressão comercial.
Do ponto de vista setorial, o Pix representa uma mudança estrutural. Ao oferecer transferências instantâneas, gratuitas ou de baixo custo, 24 horas por dia, o sistema público brasileiro alterou o equilíbrio competitivo para grandes players americanos de cartões de crédito e fintechs. Analistas veem nele um modelo de infraestrutura pública que reduz a dependência de redes privadas estrangeiras e concentra, no âmbito nacional, o controle sobre dados e fluxos financeiros.
A professora Camila Villard Duran, especialista em direito econômico e regulação monetária, observa que o caso brasileiro não é isolado. “Os EUA contestam práticas semelhantes em vários países, como Índia e Tailândia. Trata-se de uma estratégia mais ampla de questionamento a modelos nacionais de pagamentos digitais”, explica.
Quais armas comerciais os EUA têm à disposição
Apesar do tom crítico, os Estados Unidos não possuem instrumentos diretos para interferir no funcionamento interno do Pix. Qualquer medida concreta dependeria do campo comercial e estaria ancorada na própria Seção 301 do Trade Act de 1974.
As opções incluem desde a suspensão de benefícios tarifários até a imposição de novas tarifas sobre exportações brasileiras ou a retirada do Brasil do Sistema Geral de Preferências (SGP), programa criado nos anos 1970 para países em desenvolvimento. “É mais um mecanismo de pressão econômica sobre o Estado brasileiro do que um poder regulatório sobre a infraestrutura de pagamentos”, avalia Duran.
O advogado Renê Medrado, sócio do Pinheiro Neto Advogados, complementa que o escopo da investigação da USTR vai além do Pix. O documento também aborda temas como tarifas sobre etanol americano no Brasil e acusações de que o desmatamento ilegal daria vantagem competitiva a produtos agrícolas brasileiros. “Historicamente, os EUA usam esse instrumento com moderação. O resultado final dependerá muito mais da diplomacia bilateral do que de uma ação isolada contra o Pix”, pondera.
Relações bilaterais em contexto de diálogo
O episódio ocorre em momento de relativa distensão entre Brasília e Washington. Desde o encontro informal entre Lula e Trump à margem da Assembleia-Geral da ONU em setembro de 2025, há maior diálogo bilateral, com expectativa de reunião formal. Fontes próximas às negociações afirmam que o ambiente atual favorece a busca por soluções negociadas.
O que está em jogo para o Brasil
Para o país, o Pix consolidou-se como um dos principais avanços recentes do sistema financeiro. Desenvolvido e operado pelo Banco Central, o sistema democratizou o acesso a serviços de pagamento, reduziu custos de transação e impulsionou a economia digital. Qualquer escalada de retaliação comercial poderia afetar setores exportadores sensíveis, como agronegócio, indústria e mineração.
Ao mesmo tempo, a ampla adesão da sociedade e a eficiência comprovada do Pix tornam improvável qualquer alteração substancial motivada por pressão externa. O sistema representa, na visão de defensores, um exemplo de soberania tecnológica em um mundo cada vez mais digital.
Perspectiva futura
A investigação da USTR segue aberta. Enquanto não há desfecho, o Banco Central continua a aprimorar funcionalidades do Pix, reforçando sua posição como referência internacional de pagamento instantâneo. O desfecho do caso dependerá não apenas de argumentos técnicos ou jurídicos, mas da capacidade brasileira de navegar as complexas relações comerciais com a maior economia do mundo.
O episódio ilustra uma tensão global mais ampla: o embate entre modelos de infraestrutura financeira pública e privada, entre soberania nacional e livre fluxo de serviços digitais. Para o Brasil, preservar o Pix sem comprometer parcerias estratégicas pode definir o tom das relações econômicas com os EUA nos próximos anos.









