Se você achou que já tinha visto de tudo no Supremo Tribunal Federal, a terça-feira (15/09) provou que o roteiro ainda tem muitas reviravoltas. Pela primeira vez na história, o plenário do STF discutiu abertamente a possibilidade de abrir investigação contra um de seus próprios ministros Alexandre de Moraes e o resultado foi um impasse digno de novela política. Abaixo, eu reconto em 10 pontos o que rolou naquela sessão que deixou o país de boca aberta.
1️⃣ O que estava em jogo: um ministro contra a própria Corte
Tudo começou quando relatórios da Polícia Federal, produzidos no âmbito das investigações sobre fraudes no Banco Master, vieram a público. Entre os achados, 52 mensagens trocadas entre Moraes e Daniel Vorcaro, ex-diretor jurídico do banco. A pergunta que o STF tentava responder era: essas conversas justificam abrir uma investigação formal contra o ministro? O relator do caso, Edson Fachin, levou a questão ao plenário e a partir dali, o circo pegou fogo.
2️⃣ O placar ficou em 4 a 3 — e ninguém decidiu nada
Antes mesmo de entrar no mérito (se investiga ou não Moraes), os ministros precisavam decidir como julgar. Fachin queria analisar separadamente a conduta de Moraes e a de André Mendonça (que, como relator, conduziu o caso Master). Já Gilmar Mendes propôs que tudo fosse julgado junto, por sorteio de relatoria.
O placar ficou assim:
| Análise separada ✅ | Análise conjunta ❌ |
|---|---|
| Edson Fachin | Gilmar Mendes |
| André Mendonça | Cristiano Zanin |
| Luiz Fux | Alexandre de Moraes |
| Cármen Lúcia | (Dino votou com Gilmar, mas depois pediu vista) |
Mas aí veio o golpe de mestre do dia.
3️⃣ Flávio Dino pediu vista e congelou o jogo por até 90 dias
Flávio Dino, que havia votado pela análise conjunta, surpreendeu o plenário ao pedir vista ou seja, mais tempo para estudar o caso. Esse pedido suspende o julgamento por até 90 dias corridos. Se ele não devolver o processo nesse prazo, o caso volta automaticamente à pauta. Na prática, ninguém sabe quando (ou como) a decisão será retomada.
4️⃣ Dois ministros abandonaram o campo de batalha
Dois pesos-pesados se retiraram da votação antes mesmo do clímax:
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Kassio Nunes Marques declarou-se impedido, alegando que, como presidente do TSE, não poderia participar de um julgamento que pode impactar as eleições de 2026. Curiosamente, mensagens no celular de Daniel Vorcaro mencionavam o nome de seu filho, Kevin Marques, e uma suposta quantia de R$ 500 mil mensais — fato que Nunes Marques negou categoricamente durante a sessão.
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Dias Toffoli alegou suspeição por foro íntimo, justificando que sua permanência seria “para a preservação da Corte”. Toffoli já havia sido relator das apurações sobre o Banco Master até fevereiro, quando se afastou após a PF apontar ligação dele com o banco. Diferente de Nunes Marques, Toffoli permaneceu no plenário, reservando-se o direito de pedir a palavra.
5️⃣ O bate-boca principal: “Quem tem medo da Polícia Federal?”
Se você só assistiu a um trecho da sessão, provavelmente foi este. Alexandre de Moraes e André Mendonça trocaram farpas ao vivo, com direito a acusações de pressão sobre a PF e negativas veementes:
Moraes: “Quem tem medo da Polícia Federal?”
Mendonça: “Não é questão de medo, não.”
Moraes: “Eu não estou perguntando a Vossa Excelência.”
Mendonça: “Mas eu estou lhe respondendo.”
A coisa esquentou quando Moraes acusou Mendonça de ter pressionado a PF para incluí-lo em uma delação premiada, dizendo ter testemunhas. Mendonça rebateu com um sonoro: “Isso é mentira” — e Moraes, sem perder o fôlego, sugeriu que as testemunhas fossem chamadas. Mendonça retrucou: “Podem chamar quem quiser, vão mentir.”
6️⃣ Gilmar Mendes x André Mendonça: “Pode chorar”
Se um bate-boca já era muito, o plenário entregou dois. Gilmar Mendes, decano da Corte, acusou Mendonça de ter conduzido o caso com “inequívoco viés eleitoral”, citando a escolha da data (7 de setembro) como indício de motivação política.
Mendonça reagiu com o que se tornou a frase do dia:
Mendonça: “O senhor está sendo leviano.”
Gilmar: “Pode chorar, pode chorar.”
Mendonça: “Não estou chorando não. Aqui não tem choro não. Respeite!”
O clima era tão tenso que até o PGR Paulo Gonet entrou na discussão indiretamente Gilmar saiu em sua defesa, chamando-o de “sujeito investido de um sentimento policialesco”, o que irritou ainda mais Mendonça.
7️⃣ Luiz Fux e a bomba da “PF paralela”
Em meio ao caos, Luiz Fux fez uma declaração que ecoou pelo plenário:
“Não se pode admitir que fique um órgão agindo contra o Supremo Tribunal Federal. Peitando ministro do STF.”
Ironia das ironias, André Mendonça que estava sendo julgado justamente por ter determinado o afastamento do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues concordou com Fux, falando fora do microfone: “Temos hoje uma PF paralela”. O julgamento virtual da Segunda Turma já tinha maioria para manter o afastamento de Andrei Rodrigues, mas Gilmar Mendes pediu vista e travou também essa decisão.
8️⃣ Bastidores: bilhetes secretos e abraços de reconciliação
Enquanto o público via o confronto, nos bastidores a política seguia seu curso. Logo após Toffoli declarar sua suspeição, Mendonça lhe enviou um bilhete por intermédio de um assistente. Toffoli leu e guardou ninguém sabe o conteúdo.
Nos momentos de maior tensão, os olhares cruzados entre os ministros contavam uma história à parte. Quando Mendonça falou em “PF paralela”, Moraes o encarou. Quando Gilmar atacava Mendonça, o ministro balançava a cabeça em sinal de discordância.
Na pausa, porém, as coisas se suavizaram: Flávio Dino se levantou, abraçou Fachin, e os dois saíram conversando, seguidos por Cármen Lúcia, Fux e Zanin. Gilmar e Moraes também deixaram o plenário juntos, conversando. A política, como sempre, tem dois tempos: o da briga e o do cafezinho.
9️⃣ Cármen Lúcia: “Peço desculpas ao povo brasileiro”
Em um dos momentos mais marcantes da sessão, Cármen Lúcia declarou estar em estado de “profunda consternação e tristeza” e fez algo raro em Brasília: pediu desculpas ao país.
“Eu peço desculpa ao povo brasileiro por talvez ter esperado de mim uma postura diferente.”
A ministra reconheceu que a crise no Supremo gerou um “mal-estar cívico” e que, apesar das boas intenções de todos os ministros, as questões “não foram resolvidas e foram crescendo demais”. Foi o reconhecimento público de que o tribunal atravessa uma crise institucional sem precedentes.
🔟 E agora? O que vem pela frente
Com o pedido de vista de Flávio Dino, o julgamento está congelado por até 90 dias. Até lá, vale tudo:
- Fachin, como relator, decide se mantém ou adia o julgamento sobre Mendonça previsto para o dia 23 de setembro;
- Ministros alinhados a Mendonça pressionam pelo adiamento;
- A PF segue sob escrutínio, com acusações cruzadas sobre atuação “paralela”;
- E o país fica sem resposta sobre se Alexandre de Moraes será ou não investigado.
Uma coisa é certa: o STF que sair dessa crise não será o mesmo que entrou nela. E o Brasil, que assiste a tudo pela TV Justiça, talvez esteja aprendendo à força como funcionam (e como travam) as engrenagens do poder.









