Dados obtidos via Lei de Acesso à Informação revelam 39 mortes em intervenções da Polícia Militar de Santa Catarina de janeiro a 10 de abril de 2026, alta de 18% ante 2025. Concentração na Grande Florianópolis, perfil das vítimas e debate sobre câmeras corporais marcam o cenário de segurança pública no estado. (159 caracteres)
A Polícia Militar de Santa Catarina registrou um aumento de 18,18% nas mortes decorrentes de confrontos policiais nos quatro primeiros meses de 2026 em comparação com o mesmo período de 2025. De acordo com dados obtidos pelo NSC Total por meio da Lei de Acesso à Informação, 39 pessoas foram mortas em intervenções legais de agentes do Estado entre 1º de janeiro e 10 de abril deste ano. No ano anterior, o total foi de 33 casos.
O número, que não inclui um confronto ocorrido em 14 de abril na Vila Aparecida, em Florianópolis — que resultou em mais três óbitos —, reflete uma tendência de elevação na letalidade policial já observada em anos anteriores. A maioria dos casos se concentra na Grande Florianópolis, que responde por 58% das ocorrências.
Concentração regional e perfil das vítimas
A capital catarinense lidera o ranking com 15 mortes registradas até 10 de abril. Quando somados os municípios vizinhos — São José, Palhoça e Tijucas —, a região metropolitana acumula 23 óbitos, mais da metade do total estadual.
Todos os 39 mortos eram homens, com idades entre 16 e 46 anos. Do ponto de vista étnico-racial, 23 eram brancos, oito pardos, sete negros e um amarelo. Muitos confrontos ocorreram durante o dia, inclusive pela manhã, contrariando o estereótipo de ações restritas à madrugada.
Março se destacou como o mês mais violento: 15 mortes, quase o dobro das oito registradas no mesmo período de 2025. Casos emblemáticos incluíram confrontos em comunidades como o Siri, na capital, e ações no Sul da Ilha e em outros municípios como Araranguá e Morro da Fumaça.
Posição da Polícia Militar
Procurada, a PMSC atribuiu o crescimento ao “aumento expressivo” no volume de operações policiais, que teria subido mais de 300% em relação a períodos anteriores. Segundo nota oficial da corporação, embora o número absoluto de mortes tenha aumentado, a taxa por operação reduziu, o que indicaria maior eficiência e menor risco relativo.
A instituição reforçou que atua dentro dos protocolos legais, com uso progressivo da força, e que a maioria dos confrontos resulta de resistência armada por parte de suspeitos, frequentemente com apreensão de armas de grosso calibre.
Debate sobre protocolos e câmeras corporais
Especialistas questionam o padrão de letalidade. Leonardo Silva, pesquisador sênior do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, lembra que o uso da força letal deve ser o último recurso, após esgotadas etapas como presença policial, verbalização e técnicas não letais.
“Vemos, em muitos casos no Brasil, uso desproporcional da força”, avalia Silva. Ele defende que toda morte por intervenção policial deve ser investigada com rigor pelo Ministério Público e corregedorias para verificar proporcionalidade.
O tema ganha relevância com a suspensão das câmeras corporais pela PMSC em 2024 — o estado foi pioneiro na adoção do equipamento em 2019. Desde então, até abril de 2026, o estado acumula 151 mortes em confrontos. Para o pesquisador, a retirada representa um retrocesso, reduzindo transparência e segurança jurídica tanto para policiais quanto para a população.
O Ministério Público de Santa Catarina move ação judicial para restabelecer o programa ou, ao menos, torná-lo obrigatório em situações de maior risco, como operações em residências, manifestações e violência doméstica. O processo ainda tramita.
Contexto estadual de segurança
O aumento em confrontos ocorre em um cenário mais amplo de queda em diversos indicadores criminais nos anos anteriores, embora a letalidade policial tenha mostrado tendência de alta desde 2022. Em 2025, por exemplo, Santa Catarina registrou 100 mortes por intervenção policial, o maior número da série histórica iniciada em 2008.
Especialistas e órgãos de controle enfatizam a necessidade de equilibrar o combate ao crime com o respeito aos direitos humanos e ao princípio da proporcionalidade. A ausência de policiais mortos em confrontos nos últimos períodos também é citada como indicador de que a iniciativa do confronto frequentemente parte dos suspeitos.
Perspectivas para a segurança pública em SC
O debate sobre letalidade policial deve ganhar força nos próximos meses, especialmente com a tramitação da ação sobre câmeras corporais e eventuais ajustes na política de segurança do estado. Enquanto a PM defende a intensificação de operações como resposta eficaz à criminalidade, vozes da sociedade civil e do Ministério Público cobram mais transparência e mecanismos de accountability.
A Secretaria de Segurança Pública foi procurada, mas indicou a PM como responsável por posicionamentos sobre o tema. Qualquer nova estatística ou medida anunciada pelas autoridades será fundamental para avaliar se o crescimento observado no início de 2026 representa uma tendência consolidada ou um pico pontual.









